O FUTURO INVISÍVEL
Quando um paciente entra em uma sala cirúrgica e observa um robô, vários monitores e uma equipe altamente preparada, é natural imaginar que o futuro da medicina começa naquele momento.
Mas, depois de muitos anos trabalhando com cirurgia robótica, pesquisa e formação de profissionais, cheguei a uma conclusão diferente.
Quando as luzes da sala de cirurgia se acendem, o futuro já deveria ter começado há muito tempo.
Ele começou quando alguém estudou anatomia. Quando um residente repetiu o mesmo movimento até dominá-lo. Quando um pesquisador formulou uma pergunta e decidiu testá-la. Quando uma equipe discutiu riscos e cenários. E quando uma instituição compreendeu que nenhuma inovação deveria chegar ao paciente antes que as pessoas, os processos e as evidências estivessem preparados.
Minha relação com essa ideia começou na UNIFESP, onde realizei medicina, cirurgia e fiz doutorado em Biologia Molecular. Aprendi cedo que a prática clínica mostra problemas, mas é a pesquisa que nos impede de aceitar respostas baseadas apenas em impressões pessoais. Uma convicção sem avaliação é apenas uma opinião.
Em 2005, fui para a Harvard Medical School. Lá, tive contato direto com cirurgia robótica em um ambiente de intensa pesquisa e inovação. Tornei-me o primeiro brasileiro treinado, capacitado e certificado em cirurgia robótica.
Mas o que mais me marcou não foi apenas o robô.
Foi tudo aquilo que existia ao redor dele.
Havia treinamento estruturado, acompanhamento rigoroso de desempenho, discussão sistematizada de casos, pesquisa translacional contínua, protocolos documentados e uma cultura permanente de segurança. A tecnologia era apenas a parte visível de um sistema muito maior.
Compreendi algo fundamental: comprar um equipamento é rápido — leva semanas. Mas construir competência para utilizá-lo com segurança exige tempo, método e compromisso institucional. Leva anos.
Quando retornei ao Brasil, a cirurgia robótica ainda estava começando. Voltei com uma responsabilidade clara: implantá-la de forma segura e desenvolver programas completos. Isso significava selecionar adequadamente os pacientes, capacitar cirurgiões, treinar equipes de enfermagem e anestesia, criar protocolos, acompanhar resultados e estabelecer uma cultura em que todos se comunicassem de forma clara.
Realizei milhares de procedimentos robóticos e participei da consolidação dessa modalidade no Brasil. Mas ser pioneiro não significa apenas chegar primeiro. Significa abrir um caminho seguro para que outras pessoas também possam avançar.
Hoje, como professor livre-docente da USP, considero a formação de novos profissionais inseparável do cuidado ao paciente. O verdadeiro legado de um especialista não é tornar-se insubstituível. É construir equipes capazes de oferecer resultados consistentes mesmo quando ele não está presente.
OS TRÊS PILARES
Um robô não transforma automaticamente um cirurgião em especialista. Ele amplia a visão e a precisão. Mas também pode ampliar lacunas de treinamento e falhas de comunicação. A tecnologia potencializa aquilo que existe ao redor dela.
Por isso, defendo três princípios que devem sustentar qualquer inovação médica.
PRIMEIRO: TREINAR ANTES DE OPERAR
Treinamento não é apenas assistir a uma aula ou aprender os comandos de uma máquina. É adquirir competência progressiva. Significa estudar, observar, simular, repetir, receber orientação, operar sob supervisão, analisar resultados e reconhecer quando ainda não se está preparado para avançar sozinho.
O melhor lugar para identificar um erro é antes de existir um paciente na mesa de cirurgia. E essa preparação precisa envolver toda a equipe — não apenas o cirurgião, mas anestesia, enfermagem, assistência cirúrgica, engenharia clínica. Se cada pessoa interpreta o plano de maneira diferente, a tecnologia mais avançada continua vulnerável a um problema profundamente humano: a falha de comunicação.
SEGUNDO: VALIDAR ANTES DE EXPANDIR
Minha formação em Biologia Molecular ensinou-me a desconfiar tanto do entusiasmo quanto do medo quando não estão acompanhados de método. Quando surge uma nova tecnologia, o destaque é a primeira cirurgia bem-sucedida ou o resultado mais impressionante. Mas a história realmente importante começa antes e continua depois.
Pesquisar não é retardar inovação. Pesquisar é respeito ao paciente. Reduz o risco de confundirmos novidade com avanço, entusiasmo com evidência e experiência individual com verdade universal. Uma tecnologia se transforma verdadeiramente em medicina quando produz benefícios demonstráveis para a pessoa certa, no momento adequado, nas condições corretas.
TERCEIRO: COMPARTILHAR ANTES DE CONCENTRAR
Conhecimento restrito a poucos especialistas pode produzir excelência local, mas não transforma um sistema de saúde. Precisa circular, formar novos médicos, fortalecer instituições e criar caminhos para que inovações cheguem a diferentes regiões e populações.
Dessa percepção nasceu uma visão que orienta meus projetos: construir ambientes em que treinamento anatômico, simulação, impressão 3D, inteligência artificial e pesquisa translacional coexistam. Onde médicos aprendem antes de operar, pesquisadores testam antes de prometer, e tecnologias desenvolvidas em centros de excelência possam alcançar também o Sistema Único de Saúde.
O objetivo não é criar operadores que conhecem comandos. É formar especialistas que compreendem indicações, limites, riscos e consequências das suas decisões.
A LIÇÃO E O FUTURO
Nos próximos anos, teremos robôs mais versáteis, inteligência artificial cada vez mais presente, realidade aumentada, imagens mais precisas e tratamentos cada vez mais individualizados.
Mas talvez o maior limite do futuro não seja tecnológico.
Talvez seja nossa capacidade de preparar pessoas e instituições para utilizar essas ferramentas com responsabilidade e segurança.
Por isso, diante de qualquer inovação em saúde, proponho três perguntas que devem ser feitas.
Quem foi treinado e como essa competência foi demonstrada?
Como essa tecnologia foi validada e quais resultados realmente importam para o paciente?
E como esse conhecimento será compartilhado para que o benefício não permaneça restrito a poucos profissionais ou poucos centros?
Essas perguntas interessam aos médicos, mas também às universidades, que precisam aproximar pesquisa e prática. Interessam aos hospitais, que devem investir em treinamento com o mesmo empenho com que investem em equipamentos. Interessam às empresas, que precisam considerar educação e segurança como partes do produto. E interessam ao poder público, que pode transformar centros de excelência em plataformas de qualificação para todo o sistema.
O objetivo não é reduzir velocidade. É impedir que a velocidade da compra seja maior que a velocidade do aprendizado.
Equipamento sem competência produz dependência.
Novidade sem pesquisa produz incerteza.
Conhecimento sem compartilhamento produz desigualdade.
Voltemos à sala cirúrgica do início. O paciente vê a máquina, os monitores e a equipe. Talvez nunca veja as horas de estudo, os treinamentos, as simulações e as pesquisas que aconteceram antes.
Mas receberá o resultado de toda essa preparação.
A sala de cirurgia mostra o futuro.
O treinamento e a pesquisa tornam esse futuro seguro.
E o compromisso de compartilhar o conhecimento faz com que esse futuro pertença a todos.





