A história da cirurgia robótica: do sonho da telepresença ao Brasil de hoje

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Como uma ideia nascida em laboratórios americanos e europeus transformou o tratamento do câncer de próstata, rim e bexiga, e como essa tecnologia chegou aos pacientes brasileiros.
Resumo em 30 segundos

Antes do robô: a busca por cirurgias menos agressivas

Durante quase todo o século XX, operar significava abrir. Grandes incisões davam ao cirurgião a visão e o espaço de que ele precisava, mas cobravam do paciente um preço alto em dor, sangramento e semanas de recuperação. A virada começou nos anos 1980, com a laparoscopia: uma câmera e pinças longas, introduzidas por pequenos orifícios, permitiam realizar dentro do abdome o que antes exigia um corte extenso.

A nova técnica tinha, porém, limites claros. A imagem era plana, em duas dimensões, as pinças eram rígidas e os movimentos saíam invertidos, como quem escreve olhando no espelho. Diante de cirurgias delicadas e profundas, como a retirada da próstata no câncer, esses obstáculos tornavam o procedimento laparoscópico difícil de aprender e de reproduzir. Faltava uma ferramenta que devolvesse ao cirurgião a destreza da mão humana sem a necessidade de abrir o paciente.

Os primeiros robôs cirúrgicos (1985–1999)

O primeiro registro de um robô em uma cirurgia humana data de 1985. Naquele ano, um braço industrial, o PUMA 560, foi adaptado para orientar com precisão a agulha de uma biópsia cerebral guiada por tomografia. Pouco depois, no fim da década, engenheiros e urologistas do Imperial College, em Londres, desenvolveram o PROBOT, projetado especificamente para retirar tecido da próstata. A urologia, portanto, esteve presente desde o primeiro capítulo dessa história.

O ROBODOC, por sua vez, passou a auxiliar cirurgias de quadril a partir de 1992. Paralelamente, nos Estados Unidos, o instituto de pesquisa SRI International, com apoio da NASA e do Departamento de Defesa americano, trabalhava em um conceito ousado: a telepresença. O objetivo era permitir que um cirurgião operasse soldados feridos a distância, a partir de um console seguro. O projeto militar não chegou ao campo de batalha, mas suas ideias deram origem à cirurgia robótica moderna.

Foi dessa pesquisa que nasceu, em 1995, a empresa Intuitive Surgical. Antes dela, a Computer Motion já havia lançado o AESOP, um braço que segurava a câmera e respondia a comandos de voz, o primeiro robô cirúrgico liberado pela agência americana FDA, em 1994. A mesma empresa criou depois o ZEUS, um sistema completo, com braços para câmera e instrumentos.

A virada do milênio: nasce a prostatectomia robótica

O ano 2000 marcou a mudança definitiva. Em julho, a FDA liberou o sistema da Vinci para cirurgias laparoscópicas. Ele reunia o que os cirurgiões buscavam: visão tridimensional e ampliada, filtro do tremor das mãos e pinças com punho articulado, capazes de girar dentro do corpo como um pulso humano.

Pouco antes, em maio, os urologistas Jochen Binder e Wolfgang Kramer realizaram em Frankfurt, na Alemanha, a primeira prostatectomia radical assistida por robô. Meses depois, em Detroit, a equipe de Mani Menon, no Henry Ford Hospital, iniciou o programa que padronizaria a técnica e a espalharia pelo mundo, com a colaboração dos franceses Bertrand Guillonneau e Guy Vallancien. No ano seguinte, a FDA aprovou o uso do da Vinci na cirurgia da próstata.

Também em 2001, a cirurgia a distância deixou de ser ficção. Na chamada Operação Lindbergh, o cirurgião francês Jacques Marescaux, em Nova York, retirou a vesícula biliar de uma paciente internada em Estrasburgo, na França, usando o robô ZEUS. Dois anos depois, em 2003, a Intuitive e a Computer Motion se fundiram, e o da Vinci passou a dominar o mercado.

Duas décadas de evolução

A cada geração, o robô ficou mais preciso e mais versátil. O da Vinci S, de 2006, trouxe braços mais ágeis e, pouco depois, imagem em alta definição. O Si, de 2009, permitiu dois consoles, o que transformou o ensino: o professor passou a operar lado a lado com o aluno. O Xi, de 2014, ampliou o alcance dos braços; o SP, de 2018, passou a operar por uma única incisão; e o da Vinci 5, de 2024, devolveu ao cirurgião a sensação da força aplicada sobre os tecidos.

Novas empresas entraram em cena. Plataformas como Hugo (Medtronic), Versius (CMR Surgical), Toumai (MicroPort MedBot) e hinotori (Medicaroid) ampliaram a concorrência e abriram caminho para custos menores. Só com o da Vinci, foram realizadas cerca de 3,15 milhões de cirurgias em 2025, quase 70% a mais do que três anos antes. Fonte: relatórios anuais da Intuitive Surgical.

Uma ponte entre Boston e São Paulo

Em meados dos anos 2000, a cirurgia robótica ainda era uma realidade distante para os pacientes brasileiros. Foi nesse período, entre 2005 e 2007, que realizei meu pós-doutorado na Harvard Medical School, no Children’s Hospital Boston, dedicado à pesquisa em cirurgia robótica, laparoscopia e urologia pediátrica. Ali tive a oportunidade de me tornar o primeiro brasileiro a concluir o treinamento e a certificação em cirurgia robótica.

De volta ao Brasil, a meta era trazer essa experiência para perto dos pacientes daqui. O país realizou suas primeiras cirurgias robóticas em 2008, e tive o privilégio de participar desse início. No ano seguinte, assumi a coordenação de Cirurgia Robótica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, onde hoje também coordeno a Urologia. Desde então, foram mais de 5.000 cirurgias robóticas, uma das maiores experiências individuais do país, sobretudo no tratamento do câncer de próstata, rim e bexiga.

Mais do que números, esse caminho mostrou que a tecnologia só cumpre sua promessa quando vem acompanhada de formação rigorosa, de equipes bem treinadas e de pesquisa contínua. Esse é também o compromisso que levo para a sala de aula, como professor Livre-Docente da Faculdade de Medicina da USP.

A cirurgia robótica no Brasil

Desde as primeiras cirurgias, em 2008, a robótica brasileira cresceu de forma consistente. Quatro anos depois, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) passou a oferecer cirurgias robóticas pelo SUS. Os 51 robôs em funcionamento em 2018 se tornaram cerca de 180 em 2025, segundo a Sobracil (Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica). Ao todo, o Brasil já soma cerca de 200 mil procedimentos robóticos.Robôs cirúrgicos no Brasil. Fontes: Sobracil (2018 e 2025), Canaltech (2021) e Medicina S/A (2023). Valores de 2021 e 2025 são aproximados.

A regulamentação acompanhou esse avanço. O Conselho Federal de Medicina publicou, em 2022, a Resolução nº 2.311, que define regras para a cirurgia robótica, incluindo a exigência de treinamento específico. Entre 2021 e 2024, a Anvisa aprovou novas plataformas, como Versius e Toumai, e o Hugo chegou ao país. O ano de 2025 trouxe dois marcos: o Ministério da Saúde incorporou a prostatectomia radical robótica ao SUS, e um cirurgião em São Paulo operou, a distância, um paciente em Porto Alegre, na primeira telecirurgia robótica não experimental da América Latina. Desde abril de 2026, por decisão da ANS, os planos de saúde são obrigados a cobrir essa cirurgia.

AnoNo mundoNo Brasil
1985PUMA 560 guia uma biópsia cerebral
Fim dos anos 1980PROBOT, em Londres, é criado para operar a próstata
1994AESOP é o primeiro robô cirúrgico liberado pela FDA
2000FDA libera o da Vinci; primeiras prostatectomias robóticas, em Frankfurt e Detroit
2001Operação Lindbergh: cirurgia transatlântica a distância
2005–2007Pós-doutorado em cirurgia robótica na Harvard Medical School, em Boston
2008Primeiras cirurgias robóticas no país
2012INCA inicia a cirurgia robótica no SUS
2014da Vinci Xi
2018da Vinci SP, de porta única51 robôs em funcionamento
2022CFM regulamenta a cirurgia robótica (Resolução nº 2.311)
2024da Vinci 5, com sensação de forçaAnvisa aprova o Toumai
20253,15 milhões de cirurgias com da VinciProstatectomia robótica no SUS; primeira telecirurgia não experimental
2026Cobertura obrigatória pelos planos de saúde

O que a robótica mudou para os pacientes

Na prostatectomia radical, um estudo randomizado publicado em 2016 na revista The Lancet mostrou que a cirurgia robótica reduziu o sangramento e o tempo de internação em comparação com a cirurgia aberta, com resultados semelhantes de continência e ereção nas primeiras semanas. Hoje, a robótica é o padrão para essa cirurgia na rede privada brasileira.

No câncer de rim, o robô facilitou a nefrectomia parcial, em que se retira apenas o tumor e se preserva o órgão. Para o câncer de bexiga, o estudo britânico iROC, publicado em 2022 no JAMA, mostrou que os pacientes operados com robô passaram mais dias vivos e fora do hospital nos três meses seguintes à cirurgia.

Nenhum desses ganhos depende apenas da máquina. O robô amplia a precisão do cirurgião, mas o resultado continua nascendo da experiência, do planejamento e do cuidado de uma equipe inteira.

O próximo capítulo

A história da cirurgia robótica está longe de terminar. A inteligência artificial já ajuda a planejar cirurgias e a analisar vídeos para o treinamento de novos cirurgiões. A telecirurgia promete levar especialistas a regiões distantes, e o governo brasileiro anunciou em 2026 uma rede nacional de telecirurgia no SUS. A sensação de toque, as plataformas de porta única e a chegada de novas marcas devem tornar a tecnologia mais acessível. Ao longo de quatro décadas, o robô deixou de ser uma ideia de laboratório para se tornar parte da rotina de quem trata o câncer urológico, e o próximo capítulo começa agora.

Perguntas frequentes

Quando surgiu a cirurgia robótica?Qual foi a primeira cirurgia robótica de próstata?Quando começou a cirurgia robótica no Brasil?Quantos robôs cirúrgicos existem no Brasil?O robô opera sozinho?A cirurgia robótica de próstata é coberta pelo plano de saúde?

Sobre o autor

Prof. Dr. Carlo Camargo Passerotti é urologista e cirurgião robótico, Livre-Docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Coordenador de Urologia e Cirurgia Robótica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Formado, mestre e doutor pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), fez pós-doutorado em cirurgia robótica na Harvard Medical School. Pioneiro da cirurgia robótica no Brasil, realizou mais de 5.000 cirurgias robóticas. Atua no tratamento do câncer de próstata, rim e bexiga, da hiperplasia prostática benigna, do cálculo renal e da disfunção erétil.

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica.

Referências

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  3. BINDER, J.; KRAMER, W. Robotically-assisted laparoscopic radical prostatectomy. BJU International, v. 87, n. 4, p. 408-410, 2001.
  4. MENON, M. et al. Laparoscopic and robot assisted radical prostatectomy: establishment of a structured program and preliminary analysis of outcomes. The Journal of Urology, v. 168, n. 3, p. 945-949, 2002.
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  12. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM nº 2.311/2022. Regulamenta a cirurgia robótica no Brasil. Brasília, 2022.
  13. FUTURO DA SAÚDE. Cirurgia robótica avança no SUS, mas país ainda possui desafios para expansão da tecnologia. 9 dez. 2025.
  14. FUTURO DA SAÚDE. Cirurgia robótica: como democratizar o acesso? (artigo de Sidney Klajner).
  15. BRASIL. Conitec. Prostatectomia radical assistida por robô para o tratamento de pacientes com câncer de próstata. Relatório de Recomendação n. 1030. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.
  16. MEDICINA S/A. Abril de 2026 muda a história da cirurgia de próstata no Brasil. 2026.
  17. MICROPORT MEDBOT. Brazil launches national telesurgery network with Toumai surgical robotic system as technology platform. 13 maio 2026.
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Dr. Carlo Passerotti

Estudou Medicina na Escola Paulista de Medicina (EPM), e também, mestrado e Doutorado, na Universidade Federal de São Paulo. Pós-doutorado em cirurgia robótica na Harvard Medical School, Boston, onde foi o primeiro brasileiro a ser certificado e treinado em cirurgia robótica. Atualmente é Professor Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP, orientador na pós-graduação da Universidade de São Paulo, e coordenador do serviço de Urologia e Cirurgia Robótica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.