Inteligência artificial na cirurgia: onde estamos e para onde vamos

Inteligência artificial na cirurgia robótica

Um guia em linguagem simples sobre como a inteligência artificial e a cirurgia robótica já estão mudando o tratamento de doenças da próstata, do rim e da bexiga — e o que vem pela frente.

Resumo em 30 segundos

A experiência do cirurgião continua sendo decisiva para o resultado.

A inteligência artificial (IA) já ajuda médicos a encontrar o câncer de próstata na ressonância e na biópsia com mais precisão.

O robô cirúrgico não opera sozinho: ele é comandado pelo cirurgião, movimento a movimento.

Em 2025, foram feitas mais de 3 milhões de cirurgias com o robô da Vinci no mundo, e o SUS incorporou a cirurgia robótica de próstata.

Robôs que executam etapas sozinhos e a telecirurgia já foram testados, mas a cirurgia autônoma em pacientes ainda está em fase de pesquisa.

O que é inteligência artificial na medicina, em palavras simples

Inteligência artificial é um programa de computador que aprende com exemplos. Em vez de seguir regras escritas uma a uma, ele analisa milhares de casos — imagens de ressonância, lâminas de biópsia, vídeos de cirurgia — e aprende a reconhecer padrões. É parecido com o que acontece com um médico ao longo da carreira: quanto mais casos ele vê, mais rápido identifica o que importa. A diferença é que a máquina consegue analisar dezenas de milhares de exames em pouco tempo e não se cansa.

Isso não significa que ela pensa como um médico. A IA é muito boa em tarefas específicas, como apontar uma área suspeita em uma imagem, mas não conhece a história do paciente, não examina, não conversa e não decide sozinha. Na prática, funciona como uma segunda opinião muito rápida, que o especialista confere e interpreta.

Robô cirúrgico e inteligência artificial não são a mesma coisa

Uma dúvida comum no consultório é: “Doutor, é o robô que vai me operar?”. A resposta é não. Na cirurgia robótica, o cirurgião fica em um console, a poucos metros do paciente, e comanda os braços do robô com as mãos e os pés. Cada movimento é dele. O robô filtra o tremor natural das mãos, amplia a imagem em 3D e permite que pinças muito finas girem em ângulos que a mão humana não alcança.

A inteligência artificial entra como uma camada a mais: ajuda a interpretar exames, a planejar a cirurgia e, cada vez mais, a analisar o próprio vídeo da operação. Pense no robô como um carro de alta precisão e na IA como o GPS e os sensores. Quem dirige continua sendo o cirurgião.

Onde estamos hoje: os números da cirurgia robótica

A cirurgia robótica deixou de ser novidade. Em 2025, foram realizadas cerca de 3,15 milhões de cirurgias com a plataforma da Vinci no mundo, 18% a mais do que no ano anterior. No Brasil, onde a cirurgia robótica começou em 2008, já existem cerca de 200 plataformas em funcionamento. Em 2025, o Ministério da Saúde incorporou a prostatectomia radical assistida por robô ao SUS, após avaliação favorável da Conitec.

A próstata é o órgão onde essa transformação começou e onde ela está mais avançada. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano entre 2026 e 2028. É o tumor mais comum entre os homens brasileiros.

Câncer de próstata: da ressonância à cirurgia robótica

Uma ressonância lida com mais precisão

Hoje, antes de uma biópsia, a ressonância magnética da próstata ajuda a mostrar se existe uma área suspeita e onde ela está. O desafio é que interpretar esse exame exige muita experiência, e radiologistas diferentes podem chegar a conclusões diferentes.

O estudo internacional PI-CAI, publicado em 2024 na revista The Lancet Oncology, comparou um sistema de IA treinado com mais de 10 mil ressonâncias com 62 radiologistas de 20 países. A IA encontrou cerca de 7% mais cânceres relevantes e gerou aproximadamente metade dos alarmes falsos. Para o paciente, isso pode significar menos biópsias desnecessárias e menos tumores que passam despercebidos.

Uma biópsia com uma segunda leitura digital

Depois da biópsia, o patologista analisa o tecido no microscópio. Em 2021, a agência americana FDA aprovou o primeiro programa de IA para apoiar essa leitura no câncer de próstata. No estudo que embasou a aprovação, a capacidade dos patologistas de encontrar o câncer (o que os médicos chamam de sensibilidade) subiu de 89,5% para 96,8% com a ajuda da IA, e os casos de câncer não detectado caíram 70%.

Uma decisão de tratamento mais personalizada

Nem todo câncer de próstata precisa de tratamento agressivo. Alguns podem ser apenas acompanhados de perto, na chamada vigilância ativa. Desde 2024, as diretrizes da NCCN, uma das principais referências mundiais em oncologia, incluem um teste baseado em IA que analisa a imagem digital da biópsia junto com os dados clínicos. Ele estima o risco de cada paciente e ajuda a decidir quem se beneficia de tratamento adicional.

A prostatectomia radical robótica

Na prostatectomia radical robótica, a próstata é retirada por pequenas incisões. A visão ampliada e a precisão dos movimentos ajudam o cirurgião a preservar os nervos responsáveis pela ereção e as estruturas que controlam a urina, sempre que o tumor permite. Em geral, o paciente tem menos sangramento, menos dor e alta hospitalar mais rápida.

Câncer de rim: operar menos e preservar mais

Com o aumento dos exames de imagem, muitos tumores de rim são descobertos ainda pequenos, por acaso. Nem todo nódulo renal é câncer. Em um estudo publicado em 2020 no American Journal of Roentgenology, cerca de 1 em cada 5 nódulos sólidos de até 4 cm era benigno. No mesmo trabalho, um modelo de IA aplicado à tomografia acertou o diagnóstico em 88% dos casos. A expectativa é que ferramentas assim ajudem a evitar cirurgias desnecessárias.

Quando a cirurgia é necessária, a robótica permite, em muitos casos, a nefrectomia parcial: retirar apenas o tumor e preservar o restante do rim. Modelos em 3D, criados a partir da tomografia do próprio paciente, já ajudam a planejar onde cortar e quais vasos controlar. O próximo passo é a realidade aumentada, que sobrepõe esse modelo à imagem da cirurgia em tempo real.

Câncer de bexiga: enxergar o que o olho pode deixar passar

O principal sinal de alerta do câncer de bexiga é sangue na urina, que nunca deve ser considerado normal. O diagnóstico é feito pela cistoscopia, um exame em que uma pequena câmera examina a bexiga por dentro. Algumas lesões são planas e difíceis de ver.

Pesquisadores da Universidade Stanford desenvolveram um sistema de IA, o CystoNet, que analisa o vídeo da cistoscopia. Em estudo publicado em 2019 na European Urology, o sistema reconheceu 90,9% dos tumores, raramente apontou como tumor algo que não era (especificidade de 98,6%) e identificou todas as lesões planas avaliadas. Quando há indicação de retirar a bexiga (cistectomia), a cirurgia robótica é uma das opções disponíveis em centros especializados.

Hiperplasia prostática benigna: quando a próstata aumenta

Com a idade, a próstata cresce. Esse aumento, chamado hiperplasia prostática benigna (HPB), não é câncer, mas pode causar jato urinário fraco, vontade frequente de urinar e a necessidade de levantar várias vezes à noite. Quando os remédios não resolvem, existem procedimentos minimamente invasivos.

Um deles é a aquablação, em que um jato de água guiado por robô remove o excesso de tecido. Em 2024, o FDA liberou uma nova geração desse sistema com planejamento por IA, construída a partir de dados de mais de 50 mil procedimentos reais. A IA analisa as imagens de ultrassom e cistoscopia e ajuda o cirurgião a desenhar o tratamento de acordo com a anatomia de cada paciente. Outras opções, como o Rezum (vapor d’água), o laser e a ressecção endoscópica, continuam importantes. A melhor escolha depende do tamanho da próstata, dos sintomas e das prioridades de cada homem, como a preservação da ejaculação.

Disfunção erétil: tecnologia a favor da qualidade de vida

A disfunção erétil é comum e pode ter causas vasculares, hormonais, emocionais ou estar ligada a cirurgias na região da pelve. Ela também pode ser um sinal precoce de doenças do coração. Por isso, merece avaliação médica, e não apenas um remédio comprado na farmácia.

No tratamento do câncer de próstata, a preservação da ereção é uma das maiores preocupações dos pacientes. Além da precisão da cirurgia robótica para poupar os nervos, pesquisadores vêm desenvolvendo modelos de IA que estimam, antes da operação, a chance de recuperação da ereção, com base em idade, função sexual prévia e características do tumor. Isso permite conversas mais claras sobre expectativas e uma reabilitação planejada desde o início.

Por dentro da sala cirúrgica: a IA que aprende com o vídeo

Cada cirurgia robótica gera horas de vídeo em alta definição. Algoritmos já conseguem reconhecer automaticamente cada fase da operação. Em um estudo com 18 centros de ensino, publicado em 2025 na Surgical Endoscopy, a IA identificou as etapas da prostatectomia robótica com 89% de acerto e conseguiu distinguir cirurgiões experientes de iniciantes. No futuro, isso deve ajudar a treinar novos cirurgiões com mais segurança e a avaliar a qualidade das cirurgias com critérios objetivos.

Para onde vamos: os próximos dez anos

Robôs que executam etapas sozinhos

Em julho de 2025, pesquisadores da Universidade Johns Hopkins publicaram na Science Robotics um experimento em que um robô treinado com vídeos de cirurgias realizou sozinho uma longa fase da retirada da vesícula biliar, com 17 etapas e 100% de acerto. O teste foi feito em modelo de laboratório, não em pessoas. É um marco científico, mas a cirurgia autônoma em pacientes ainda depende de muitos anos de estudos e de regras de segurança.

Telecirurgia: o especialista a quilômetros de distância

Em outubro de 2025, o Brasil realizou a primeira telecirurgia robótica não experimental da América Latina: um cirurgião em São Paulo operou um paciente com câncer de próstata em Porto Alegre. O atraso do sinal foi de 24 milésimos de segundo, e o paciente teve alta em 24 horas. Com redes mais rápidas, a telecirurgia pode levar especialistas a regiões que hoje não têm acesso a esse tipo de tratamento.

Cirurgia planejada em um “gêmeo digital”

A tendência é unir tudo: ressonância lida com apoio de IA, modelo 3D do órgão do paciente, simulação da cirurgia antes de ela acontecer e acompanhamento dos resultados depois. Cada paciente terá um plano de tratamento cada vez mais individual.

Assistentes virtuais para tirar dúvidas

Muitos pacientes já pesquisam sintomas em ferramentas como ChatGPT, Gemini ou Claude. Elas ajudam a entender termos e a preparar perguntas para a consulta, mas podem errar e não conhecem o seu caso. Use essas ferramentas como ponto de partida, nunca como diagnóstico.

O que a inteligência artificial não faz

  • Não substitui a consulta, o exame físico e a conversa com o médico.
  • Não opera pacientes sozinha: hoje, todos os movimentos da cirurgia são do cirurgião.
  • Não elimina a importância da experiência: a curva de aprendizado do cirurgião continua influenciando os resultados.
  • Precisa ser validada em diferentes populações, já que muitos algoritmos foram desenvolvidos com dados de pacientes europeus e norte-americanos.
  • Exige cuidado com os dados: no Brasil, informações de saúde são protegidas pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Perguntas para levar à sua consulta

  • Meu caso tem indicação de cirurgia robótica ou de outro tratamento?
  • Qual é a experiência da equipe com esse procedimento?
  • Devo fazer ressonância magnética antes da biópsia de próstata?
  • Quais são as chances de preservar a continência urinária e a ereção no meu caso?
  • Existe a possibilidade de acompanhar o tumor, em vez de operar?
  • Quanto tempo vou ficar internado e quando volto às minhas atividades?

Perguntas frequentes

A inteligência artificial vai substituir o cirurgião?A cirurgia robótica é feita pelo robô?Quais doenças urológicas podem ser tratadas com cirurgia robótica?A cirurgia robótica de próstata preserva a ereção?A inteligência artificial já é usada no Brasil?O plano de saúde cobre a cirurgia robótica?Posso usar o ChatGPT para entender meu diagnóstico?

Ferramentas de IA podem ajudar a entender termos médicos e preparar perguntas, mas podem errar e não conhecem o seu caso. O diagnóstico e o tratamento devem ser definidos com o seu urologista.

Sobre o autor

Prof. Dr. Carlo Camargo Passerotti é urologista, Livre-Docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e Coordenador de Urologia e Cirurgia Robótica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Formado e doutor pela Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), fez pós-doutorado na Harvard Medical School. Foi o primeiro médico brasileiro a ser treinado em cirurgia robótica no Brasil, em 2005, mesmo antes do primeiro equipamento chegar ao Brasil, em 2008, e já realizou mais de 5.000 cirurgias robóticas. Atua em câncer de próstata, rim e bexiga, hiperplasia prostática benigna, disfunção erétil e cirurgia minimamente invasiva.

Este conteúdo tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta médica. Em caso de sintomas ou dúvidas sobre o seu tratamento, procure um urologista.

Referências

BAND NEWS FM. Brasil faz a primeira telecirurgia robótica não experimental da América Latina. 30 out. 2025.

BRASIL. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Prostatectomia radical assistida por robô para o tratamento de pacientes com câncer de próstata. Relatório de Recomendação n. 1030. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.

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Dr. Carlo Passerotti

Estudou Medicina na Escola Paulista de Medicina (EPM), e também, mestrado e Doutorado, na Universidade Federal de São Paulo. Pós-doutorado em cirurgia robótica na Harvard Medical School, Boston, onde foi o primeiro brasileiro a ser certificado e treinado em cirurgia robótica. Atualmente é Professor Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP, orientador na pós-graduação da Universidade de São Paulo, e coordenador do serviço de Urologia e Cirurgia Robótica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.